2012
04.29

PalomaPara mim os projetistas de avião são todos uns sacanas. Acho que, alguns deles, somente por diversão, embarcam como “mortais” passageiros só para curtir com a cara dos mortais passageiros, sem disfarce.

Você pode ser o mais experiente viajante, mas é certo que já ficou com aquela cara de tonto porque não encontra o maldito buraco para conectar o fone de ouvido, para finalmente poder relaxar depois de horas de aventura no aeroporto, ou a droga do botão para acender a luz de leitura.

La vai um desavisado ao toalete. Puxou a porta que não abriu. Tem que empurrar seu tonto! Mas tem que ser bem no meio, caso contrário não abre. Puxou de um lado, do outro, e nada, tentou empurrar, não abriu. O cara está quase se mijando e nada da droga da porta abrir. Desanimado olha para os lados pedindo socorro e, finalmente uma comissária de bordo com cara de autoridade vem e coloca a ponta dos dedos no meio da porta, que com um leve toque milagrosamente se abre.

Humilhado, agradece a comissária e entra no banheiro puto da vida. Imagino que o cara deve estar xingando até a última geração do maldito que inventou aquilo. (mais…)

2012
04.15

CanelaTentei responder esta pergunta, mas esbarrei na impossibilidade logo na primeira resposta: terminar a história que comecei escrever. A razão é simples: esta história somente termina com o meu próprio fim, isto mesmo, quando eu deixar de existir.

Mas como, se continuo escrevendo diariamente a minha história? Alguns dias escrevo uma página ou duas, outros algumas linhas, e muitos outros, somente uma palavra, mas nunca termino um dia sequer sem escrever ao menos uma palavra. Por isso, acredito que a minha história está ficando, se não bonita, ao menos, interessante.

Inconformado que sou não me traria nenhuma sensação de completude, finalizar a minha própria história de vida. Penso que seria injusto mesmo aos 90 anos de idade. Por isso, não seria honesto comigo mesmo, e certamente buscaria uma maneira de retardar o seu final. Mesmo que terminada, encontraria uma forma de revisa-la indefinidamente.

Sabe mais? É melhor esquecer este pensamento de fazer algo antes de morrer, simplesmente quero continuar escrevendo a minha história sem pensar no final, pois esta é a única parte que não tenho controle. A triste realidade é que começamos a morrer quando nascemos. (mais…)

2012
04.01

TartarugaTenho pensado muito sobre a importância das coisas, e a minha conclusão é que tudo na vida é relativo, exceto a felicidade. Prazer e felicidade não são a mesma coisa, mas vários pequenos prazeres podem trazer felicidade.

É certo que de uma maneira, ou de outra, todos nós buscamos ser feliz na vida, mas são poucos os que a encontram. A falsa ideia de que as coisas grandes trazem felicidade, distrai, tira o foco, faz perder tempo. Também há que se entender que não se pode ser feliz o tempo todo.

Podemos sim, encontrar felicidade em coisas simples e pequenas. Uma boa conversa fiada, a brisa do mar, caminhar na cidade deserta, ouvir uma boa musica, um filme romântico, um almoço em família, uma palavra amiga, um afago de mãe, mesmo que por alguns instantes elevam o espírito.

Meu coração se enche de alegria ao caminhar despretensiosamente em um parque, ouvir o vento, os pássaros, os grilos. Da mesma maneira, meus olhos se enchem de cores ao reparar nas borboletas, nas flores, nos diferentes tons de verde das arvores. (mais…)

2012
03.04

RostoSe Deus criou ser mais encantador do que a mulher, guardou para si.

Ser de curvilíneas formas e instinto aguçado. Fêmea que a natureza quis te fazer matriz, sensual beleza que encanta o poeta, o pai, o filho e o espírito santo.

Equilibrio harmônico de beleza, coragem e inteligência, é capaz de ser mulher amante e mãe em um instante. A mulher pode chorar de alegria e rir de tristeza e, de súbito, transformar delicadeza em felina ira para defender sua cria.

Às vezes hormonal, flutua entre a razão e sensibilidade, explodindo em emoção, que deixa aflorar o cristalino da alma, sem expor fragilidade, apenas mostrando a pureza feminina de mulher. Por principio mulheres odeiam guerra, mas são capazes de lutar até a morte por seus valores e principios.

Contradição única de mulher que sonha a realidade e vive sonhos concretos. Enxerga o oculto e faz que não vê a aparente evidencia. Muitas vezes, esconde coisas de si mesma para não magoar. Plural e singular multiplica-se no trabalho e se mantém exclusiva na paixão.

Mãe, esposa e amiga e ainda sobra tempo para simplesmente ser mulher. Simplesmente? Nada simples equilibrar ternura, amor incondicional, instinto, poder de sedução, se mantendo bela, frágil e sorridente. Frágil na aparência, forte nas atitudes.

Mãe, filha e avó, múltiplos papeis para um ser único, dotado de poderosa capacidade de mutação. Vida que no tempo avança, magia do novo encanto que a fase registra.

Tempo implacável que passa e deixa marcas, mas não apaga o encanto. Equilíbrio entre o viço da sensualidade e beleza madura que neutraliza a força do tempo.

Voz, formas e gestos que conquistam, encantam, enfeitiçam. Mulher soberano e controverso ser, fruto do milagre da criação. O mundo está em equilíbrio porque você existe, divina mulher.

2012
01.29

ampulhetaVestido sem o peculiar alinho da juventude, sequer resta alguma elegância dos tempos de jovem. A energia e a disposição também não são as mesmas.

Cabelos prateados, mãos tremulas, pernas vacilantes, o rosto marcado pelo tempo e a voz fraca em frágeis palavras.

Os olhos quebrados deixam ver a vida com triste amargura.

Dias longos que continuam correndo alternados entre a confiança e o desanimo. Nada de vaidade, sua vida passa em branco e preto.

Dores de dias que acabam e passam deixando profundas marcas na dolida alma.

Áspero e sangrento duelo do homem contra o tempo.

Quem vence?

Nem um, nem outro!

2011
12.22

Polo NorteExiste algo mais sem sentido do que um eCard?

Quando recebo um cartão eletrônico, seja de aniversário ou de Natal, tenho a impressão que a pessoa que me mandou o fez unicamente por obrigação. Como já está pronto – inclusive a mensagem pasteurizada – não demora mais do que 1 minuto para se livrar da obrigação. Mas o que se pode fazer, por mais que os românticos resistam, o mundo evolui, a fila anda.

Fico então pensando quando virá o Papai Noel virtual. Um velhinho barrigudo vestido com roupas vermelhas, a barba branca, as bochechas coradas, botas e cinto pretos com fivelas brilhantes e luvas impecavelmente brancas, tudo isto disponível na versão 3D e me chamando pelo nome.

Nenhuma criança vai duvidar que ele existe, afinal está ali na frente na tela do computador ou (mais…)

2011
11.20

FlorestaTenho me esforçado na tentativa de abolir a palavra “quando?” do meu dicionário de vida – isto mesmo a palavra quando grafada com um ponto de interrogação – porque estou convencido de que esta palavra me afasta da felicidade.

Confesso que não tem sido fácil, afinal somos treinados para pensar no futuro. Também nos ensinam que devemos pensar grande e rápido. Mas, o mais importante na vida prega os profetas, é o sucesso. A que preço? Não interessa; me mato agora e ganho o direito ao desfrute no futuro.

Com esta estratégia em mente e o coração vacilante criamos o mantra do “quando?”.

Quando eu tiver dinheiro suficiente poderei trabalhar menos e me dedicar a minha família; quando eu tiver um bom emprego poderei fazer aquele curso de fotografia que tanto falo; quando eu tiver a minha casa própria poderei realizar o sonho de aprender a dançar; quando eu conseguir comprar o carro que desejo poderei viajar mais. Quando, quando, quando, … (mais…)

2011
10.23

Arvore SepiaUm lampejo de nostalgia me fez lembrar a casa de meus pais, o quintal e as dálias amarelas, o portão de ferro e dos latidos insistentes do cachorro. No silencio da noite se ouvia o ultimo trem rangendo o freio ao chegar à minúscula estação, para depois re-iniciar a fatigante viagem.

Lembrei-me da quitanda da Dona Teresa, uma senhora idosa, baixinha e gordinha que recebia os fregueses com um sorriso enorme no marcado rosto e uma atenção sem igual. O que eu mais gostava eram os doces, tinha: maria-mole, pé de moleque, doce de leite, merengues e muitos outros quitutes. Com frequencia, a minha mãe, parava na quitanda para comprar verduras e legumes frescos, e eu, sempre na expectativa de que me fosse regalado um doce ou, pelo menos, alguns caramelos.

Ao lado da quitanda havia o açougue do Sr. Ângelo, um homem alto, de pele rosada, sempre disponível para uma conversa fiada. Mesmo que juntassem pessoas para serem atendidas, o Sr. Ângelo nunca tinha pressa. Eu adorava pedir carne moída só para ver a máquina funcionando. (mais…)

2011
09.17


Caminhavam abraçados na ensolarada, embora fria, tarde de sábado. Ele parou em frente a uma banca de flores e pediu para ela fechar os olhos; comprou um maço de margaridas, suas flores preferidas. Quando ela o viu com o maço de flores na mão, saltou em seu pescoço e o beijou com carinho. Tirou uma margarida do buque e exclamou:

– Vamos fazer o jogo do bem-me-quer?

Sem lhe dar chances de resposta, despetalou a margarida, e a última pétala foi um “bem-me-quer”.

– Eu sabia disse ela, nosso amor não permite um mal-me-quer.

É verdade, entre eles existe algo singular quando estão juntos, aquela vontade de dizer bobagens meigas, de fazer carinho, de abraçar, sentir o vibrar dos corpos. Quando estão longe o bem querer conforta e faz sentir o calor, o carinho, o amor. Mantém a alma desperta e o coração em chamas. Mesmo quando estão longe se sentem perto. (mais…)

2011
09.01

SolDe natureza fugidia, desde muito cedo, o sol brilha com fúria e, no final de sua jornada diária, o amarelo cítrico vai cedendo espaço ao vermelho intenso, que sobriamente se transforma em violeta para rapidamente se reduzir ao nada.

À medida que a luz do sol vai perdendo força no tornassol horizonte, calam-se as palavras e emergem os sonhos, planos e promessas.
O crepúsculo começa onde tudo acaba, é a aurora vista do fim para o começo, acumulando a experiência vivida em um dia inteiro. Talvez seja por isso que os homens prestem mais atenção ao sol poente, que traz consigo os mistérios da noite, do oculto, do não sabido, do sombrio, do frio. À noite tudo caminha devagar.

O crepúsculo encanta, paralisa. (mais…)


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